terça-feira, 15 de setembro de 2009

Child's Dream ...

Como uma Estrela que só brilha quando quer ...




"Olha lá para o céu, tem tantas estrelas. Escolhe uma e pede um desejo.
Então?
Vá pede um desejo!
Um desejo?! Se ainda me desses uma estrela..."


Olhei para o céu de tão estrelado que se apresentava e a tentação revelou-se destrutiva. Apontei na sua direcção e como se de um enorme arranha-céus me atirasse não havia como regressar àquele estreito parapeito, tinha atravessado o ponto sem retorno. Na altura pareceu-me uma escolha banal, uma escolha como outra qualquer, afinal de contas qualquer criança sonha em ter a sua própria estrela, aquele ponto luminoso no negro infinito que se avista todas as noites da janela do quarto, e eu, apesar de não corresponder à definição generalizada de criança em consequência da minha não tão tenra idade, não era diferente.
Todas as noites dedicava-lhe quase a totalidade dos poucos instantes que restavam do meu ocupado dia, sentava-me de frente para ela, de costas para o mundo. Olhava-a directamente no que eu julgava serem os seus olhos e monologava temas que ninguém tinha paciência para ouvir, maioritariamente coisas sem algum sentido inventadas no calor do momento simplesmente para eliminar o meu tédio (sim, o meu, porque ela de tão incandescente e vistosa que era, decididamente não seria somente minha). Não a aborrecia com problemas fúteis, nem com crises do adolescente que era. Podia ser simplesmente eu, soltar a criança em mim (se bem que a atitude de falar com uma estrela já me pareça a mim bastante infantil).
Tornou-se a rotina mais rotineira que eu alguma vez ousara ter. Vivia o dia ansiando pela noite, olhando para cima em busca do “meu ponto luminoso” , mas acabava concluindo que era um desperdício de tempo, por aquela altura estava ele do outro lado do mundo a cumprir a sua tarefa de iluminar os céus.
Perguntava-me que raio de obsessão era aquela? Obsessão por uma estrela? Infantilidade extrema! “Não tens idade para estes comportamentos” repetia para mim. Mas aquela estrela tinha-me cativado. Cativado duma forma tal que eu dependia acima de tudo dela. A sua beleza ofuscava as restantes estrelas no céu. O seu olhar transmitia carinho, simpatia, mas acima de tudo a liberdade de quem não depende de ninguém e brilha somente pelo prazer (tal como um artista em palco, debaixo dos holofotes brilhando mais que eles) de ser a melhor. Ela é e sabe-lo bem.
Nunca me respondeu, nem era necessário. Eu tinha plena consciência que não eram em vão as minhas palavras. Eram certamente escutadas.
Se se tratasse de um ser humano eu poderia afirmar cegamente que estava apaixonado, mas … era uma estrela. Como poderia eu estar apaixonado por uma estrela? Será que ela sentiria o mesmo? Só me ocorria uma resposta: “penso que sim, acho que não”. Acabei por me decidir pelo sim, afinal este amor era exclusivamente platónico, um pouco de ilusão não seria, de todo, perigoso. Vidrei-me de tal modo nesse pensamento que a meu entender não existiria outro cenário possível, mas tal era a angústia da incerteza que me invadia que me senti na necessidade de contar esta história a alguém. Reacção inicial foi precisamente a que eu imaginei: risos, seguidos da dúvida da veredicidade da revelação que eu tinha acabado de fazer e posteriormente, preocupação, afinal era de uma estrela que estávamos a falar, um corpo celeste inanimado, constituído por poeiras e gases, incapaz de nutrir fosse que sentimento fosse, explicação essa que foi o passo seguinte (com muitos mais pormenores e detalhes científicos), com o único intuito de me devolver o bom senso, contudo revelou-se um fracasso pois já estava demasiado ligado à estrela.
Como uma criança que via um brinquedo que não podia ter, ou um adolescente com o coração despedaçado (situação mais semelhante) comecei naturalmente a deprimir. Tentei desligar-me mas inconscientemente só piorava a situação: não cumpria a rotina, mas simplesmente não conseguia deixar de querer cumpri-la o que tornava a tarefa dificílima. Pouco a pouco, sem me aperceber, piorava a situação ao ponto de não conseguir lidar com a pressão.
Sai de casa com um único propósito: por em pratica o plano delineado.
Nos últimos dias a pressão revelou-se tão incontrolável ao ponto de se tornar perigosa.
Nos momentos mais escuros e sombrios, muito mais que o infinito que rodeia o meu ponto luminoso, as atitudes de qualquer adolescente com o coração partido são tendencialmente suicidas (embora sejam escassos os casos ameaçadores) e eu, para variar, não era excepção. Imaginava-me: debruçado nas margens de uma ponte aleatória a olhar pró céu com o vento a bater e a dar o tal passo em frente; a tomar uma dose abusiva de comprimidos com esperança de na manhã seguinte não acordar e não me aperceber sequer do que aconteceu. As hipóteses eram infinitas, mas qual? Qual seria, de todas, a mais vistosa e que marcaria a diferença? Qual?
É isso!
Ao sair pela porta estava decididamente decidido. A adrenalina já era demasiada para desistir.

Lá estava eu, no tal parapeito do maior edifício da cidade. 163 andares de pura loucura, justiça, imaturidade, de tudo um pouco. Olhava para baixo e observava as pessoas enquanto caminhavam, alheias a tudo, alheias a mim. Não conseguiam ver o minúsculo ponto no cimo daquele edifício (não se davam sequer ao trabalhar de olhar).
Apesar da altura as vertigens, que até ao momento me dominavam sempre que observava a uma certa altura considerável, tinham desaparecido. Sentia-me um rei naqueles 30 centímetros com os braços abertos ao vento.
Desliguei o cérebro e inclinei-me o suficiente para o inevitável e irreversível estar feito. Foram os 20 segundos mais longos de toda a minha curta vida. Pensei na estupidez do acto que tinha acabado de fazer, no motivo de tudo aquilo e no mais importante de tudo: a minha estrela. Como poderia alguém cometer um acto tão estúpido como atirar-se de um edifício somente por um amor meramente platónico por uma estrela? Era de todo ingénuo. Afinal de contas, apesar de lindas, as estrelas não passam de pontos luminosos no céu, fonte de calor, local de fusão de núcleos, etc., mas nunca serão capazes de sentir o que quer que seja.
Aparentemente os 326 metros em queda livre foram suficientes para todo o tipo de pensamentos e no instante em que o meu corpo colide com a estrada alcatroada recentemente sinto um fio a quebrar-se e enquanto o meu corpo permanece ali estendido, cada vez com mais espectadores a volta, eu olhava sereno. Miro o céu e lá está ela, o motivo de todo este alarido. A bijutaria que não passa de aparência. Brilha agora mais forte que nunca e em meros segundos desce dos céus e toma forma humana, enquanto se dirige perplexa em direcção à multidão que se amontoava. Eu, boquiaberto, sigo-a e permaneço por segundos a contemplá-la. Era ainda mais brilhante, cativante, linda e doce agora que finalmente pude ligar uma imagem à ideia.
Agora que penso é tal e qual a …
Acordei sobressaltado e com falta de ar. Afinal não passou de um sonho. Levanto-me da cama e dirijo-me à janela e olho em direcção à estrela do sonho e observo que ela está lá, mas com uma particularidade: nas horas em que sonhei com ela, perdeu parte do brilho que a caracterizava.
Terá sido real?


"Agora diz, agora... agora goza comigo, bate-me, goza comigo, diz assim: seu estúpido.
Seu tolo
Então que é que tem, porque é que eu não posso ter uma estrela?"

1 comentário:

margarida disse...

O sonho que todos nós, desde pequenos, temos... Uma estrela só para nós. Algo entre a fantasia e a realidade, algo entre o impossível e o possível. Este texto dá-nos força para enfrentar as nossas convicções e vontades, independentemente das opiniões dos outros, que são normalmente sobrevalorizadas e levadas em demasiada conta. E para além de nos dar força para enfrentar as opiniões adversas dos outros, dá-nos também força para acreditar e para continuar a sonhar, sem nunca perder a esperança :)
Está perfeito !